Depois de longos anos voltei às Cordilheiras.
Sensação esquisita, nó na garganta... Ao mesmo tempo reconhecimento e estranheza.
A companhia da Kika, do Henrique e dos meus sobrinhos - Didi, Pedro e Valerinho foram a melhor coisa, nesse momento.
Não tinha voltado lá desde o
acidente do meu irmão, nesse lugar tão especial, de lembranças tão doces da minha infância e das intermináveis férias de verão. Não quero mudar este olhar nem me encher de amarguras e reviver tanta dor. Então me concentro no Henrique e na sua expressão de curiosidade e alegria. É tudo tão bonito e vem um vento morno do verão que está indo embora.
Lá fora, sempre a consciência dos ciclos, do sol se pondo lentamente, para depois renascer cheio de esperanças. O inverno traz as geadas que deixam tudo cor de palha, mas a primavera faz brotar, do chão, o pasto verdinho e as incontáveis florzinhas do campo, provando que sempre podemos superar as tristezas e recomeçar tudo de novo.
As lembranças vem em forma de saudades, com gosto de lágrimas e de tristeza. Mas, com algum esforço e vontade de não mergulhar só no que me entristece, me concentro nas mil histórias que vivi nas Cordilheiras. São estas histórias, engraçadas e cheias de significados, que quero contar para meus filhos, meu neto e meus sobrinhos. E, se possível, viver novas histórias, de tardes barulhentas, banhos de rio, pescarias mal sucedidas, passeios à cavalo, brincadeiras intermináveis, nas sombras generosas das árvores que rodeiam a casa e parecem guardar segredos.
E, talvez, o segredo seja acreditar e constatar que as coisas boas não morrem nunca. O amor que sentimos se fortalece e se mantém, apesar da morte, da distância e do tempo.