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26.5.26

A história da sopeira


Há muitos anos ganhei essa sopeira (que eu adoro) de um primo querido que 
mora em Santana do Livramento. Conto a história do presente nesse link:
Esse primo, médico oftalmologista conceituado, na cidade onde mora,
sofreu um AVC há 15 anos, e as sequelas o impediram de continuar
trabalhando e deixaram muitas limitações, bastante difíceis para ele
e sua família, e para todos nós, que ficamos muito tristes com o sofrimento dele...
Estou falando sobre isso porque durante todos esses anos deixei a minha
sopeira apenas como enfeite, que trouxe comigo, quando vim morar na Querência.
Hoje fizemos uma sopa de lentilhas e decidi que serviria nela,
porque não quero ter coisas guardadas e sem uso, dentro de casa,
especialmente esse presente lindo, que ganhei do Júlio.
Amoroso, presente, alegre, agregador, enquanto esteve saudável.
Forte, resiliente, enfrentando a vida com coragem nesses anos todos.
Ele sempre está nas minhas preces e
nos meus melhores afetos e lembranças de uma vida inteira.
Mandei as fotos do nosso jantar para ele. A filha, Rafaela, mostrou 
e falou pra ele do meu carinho e das minhas saudades.
A vida traz tristezas difíceis de entender e de lidar.
Que o  Júlio saiba o quanto é importante e querido por todos nós, sempre!

20.5.26

Inverno, Memória e Pertencimento:

      entre a poesia e a crueldade do frio
.
"Assim que a primeira onda de frio chegou ao Rio Grande do Sul neste início de maio de 2026 (o inverno só começa oficialmente em 21 de junho), eu tive a sensação de que o tempo havia aberto uma velha gaveta da memória. Bastou o vento gelado começar a riscar os dias e o cheiro da lenha queimando reaparecer no ar para que eu voltasse, sem pedir licença, à infância dividida entre o Oeste do Paraná e a região das Missões.

Sou filho de pais gaúchos, nascido na comunidade de Santa Cecília, município de Missal, no interior do Paraná, onde vivi até os dezesseis anos. Em dezembro de 1992, como fazíamos todos os anos, viemos passar as férias de verão em Sete de Setembro, então pertencente ao município de Guarani das Missões. Ali acabei ficando, acolhido pelo tio Wilson, irmão de minha mãe, e por sua esposa, tia Lourdes. Em 1994, meus pais retornaram definitivamente ao Rio Grande do Sul, trazendo a mudança na carroceria do caminhão e uma vida inteira de afetos apertados entre caixas de papelão. Antes disso, eu já conhecia o frio gaúcho pelas férias escolares de julho na casa dos tios e tias – em Sete de Setembro, Santo Ângelo, Giruá, Guarani das Missões, São Paulo das Missões –, pelos galpões cheirando a fumaça e pelos cobertores de pena de ganso da casa dos avós maternos.

A infância, para mim, sempre teve temperatura baixa. Mesmo no Paraná, onde os invernos eram menos rigorosos do que no Rio Grande do Sul, havia geadas suficientes para transformar o amanhecer em espetáculo. Eu lembro da grama branca no quintal, das mãos aquecendo no fogão a lenha, da água chiando na chaleira e do leite fervendo devagar enquanto o rádio anunciava mais uma frente fria vinda do Sul. A casa em Portão do Ocoy – minha infância e parte da adolescência foram vividas entre Santa Cecília, Dom Armando e Portão do Ocoy –, Missal, era confortável. Não havia luxo, mas havia alegria e aconchego — e isso, descobri mais tarde, vale muito. O inverno não significava sofrimento; significava proximidade. Era a estação em que a família parecia se recolher para dentro dela mesma.

Minha mãe, professora, assava pão caseiro nas tardes frias dos finais de semana. Meu pai cuidava do fogo como quem vigia um patrimônio sagrado. O cheiro da madeira queimando se misturava ao do café recém passado e da roupa secando perto do fogão. Até hoje, nenhum aquecedor conseguiu reproduzir a sensação daquele calor amigo. Havia um ritual silencioso nos invernos da minha infância: fechar as janelas cedo, preparar a água quente para o chimarrão, ouvir o vento assobiar e perceber que, lá fora, o frio era quase um personagem rondando a casa.

Nas férias passadas nas Missões, no Rio Grande do Sul, o inverno tinha outra densidade. Parecia mais sério, mais encorpado, mas não menos poético. Os adultos falavam da geada como quem comenta um acontecimento importante. As madrugadas eram tão frias que a fumaça da respiração parecia querer ficar suspensa no ar. Eu me lembro dos galos cantando antes do amanhecer e da cerração cobrindo as estradas de chão. Lembro dos pés congelando no assoalho de madeira e da corrida até a cozinha para encontrar o fogão já aceso pela vó. Talvez tenha sido ali que nasceu minha paixão definitiva pelas estações bem – ou mais ou menos – definidas. Crescer entre o Paraná e o Rio Grande do Sul me ensinou que o clima também constrói identidade. O verão tinha sua alegria espalhafatosa, mas era no inverno que a vida parecia ganhar profundidade. As conversas duravam mais. As refeições reuniam mais gente em volta da mesa. O silêncio da noite fria trazia uma espécie de introspecção boa, dessas que ajudam a gente a se enxergar melhor.

Quando voltamos definitivamente ao Rio Grande do Sul, naquele início dos anos 1990, alguns parentes e amigos dos meus pais estavam fazendo o caminho contrário. Muita gente vendia o que aqui tinha e saía do Estado em busca de ampliar suas oportunidades no centro-oeste. Nós retornávamos carregando saudade e pertencimento. Eu era adolescente e poderia ter encarado aquilo como perda, mas não foi assim. O frio das manhãs gaúchas me dava a sensação estranha de estar em casa antes mesmo de eu compreender totalmente o que era pertencimento.

Já adulto, a vida também me ofereceu oportunidades de sair do Sul. Algumas eram tentadoras. Havia promessas de crescimento profissional em regiões onde o inverno praticamente não existia, onde julho parecia uma continuação cansada de março. Pensei muitas vezes. Pesei salário, estabilidade, futuro. Mas nunca consegui ignorar o peso afetivo das estações na minha vida. Pode parecer exagero para quem não sente isso, mas há pessoas que precisam do inverno como outras precisam do mar. Eu precisava da neblina nas manhãs, dos ventos cortantes em dias de céu azul, do cheiro de chuva fria chegando, das árvores perdendo folhas, da sensação de recolhimento que o frio traz. Permanecer no Rio Grande do Sul foi também uma escolha emocional.

O inverno também nos obriga a desacelerar num tempo em que tudo parece funcionar em velocidade excessiva. Talvez seja por isso que eu goste tanto dele. Há uma honestidade no frio que o verão não possui. Nos dias gelados, ninguém consegue fingir invulnerabilidade por muito tempo. O corpo pede pausa, recolhimento, abrigo. A gente aprende a respeitar limites simples: o horário em que a noite chega mais cedo, o banho quente que vira recompensa, a necessidade de estar perto de alguém ou de alguma lembrança que aqueça. O inverno reduz os excessos e valoriza o essencial. Uma caneca quente entre as mãos pode significar mais conforto do que muitos luxos acumulados ao longo do ano.

Com o passar dos anos, percebi também que o inverno tem uma relação profunda com a memória. Existem cheiros que só aparecem nessa época e que funcionam como portas invisíveis para o passado. O aroma da lenha queimando, da roupa guardada por meses no armário, do café passado e do chimarrão cevado ainda no escuro da manhã, tudo isso desperta lembranças que estavam quietas dentro da gente. Talvez porque o frio nos torne mais introspectivos, mais atentos ao que sentimos. No verão, a vida parece acontecer para fora; no inverno, ela acontece por dentro. E nesse movimento interior, reencontramos pessoas que já partiram, casas que já não existem e versões antigas de nós mesmos que permanecem vivas em algum canto da memória.

Há ainda uma beleza silenciosa na paisagem do inverno gaúcho que sempre me emociona. A cerração cobrindo os campos, as árvores despidas ou as que só dão frutos nesta estação, o brilho branco da geada antes do sol nascer, tudo parece lembrar que a natureza também possui seus períodos de recolhimento e pausa.

Vivemos numa época em que se cobra produtividade permanente, entusiasmo constante, felicidade exibida o tempo inteiro. O inverno ensina justamente o contrário: ensina que existem ciclos de silêncio, de espera e de interiorização que também são necessários para florescer depois. Talvez seja essa a grande lição da estação mais fria do ano — a de que até a vida precisa, às vezes, diminuir o ritmo para continuar pulsando com verdade.

Claro que existe certa romantização no olhar de quem viveu o inverno cercado de proteção. Hoje, quando a primeira massa polar de 2026 derruba as temperaturas e as redes sociais e os grupos de mensagens se enchem de fotos de cafés especiais e cobertores felpudos, eu penso muito em quem enfrenta essa mesma estação de maneira brutal. O frio é poético quando existe estrutura. Fora disso, ele pode ser cruel.

Há uma diferença imensa entre apreciar o inverno e sobreviver a ele. Quem tem casa aquecida transforma a estação em experiência sensorial: sopa fumegante, vinho, pinhão, pantufas, filmes, silêncio confortável. Já quem vive em moradias precárias sente o frio entrando pelas frestas como uma agressão contínua. Enquanto alguns comemoram a chegada das temperaturas baixas, outros contam cobertores, improvisam abrigo ou aquecimento e atravessam madrugadas inteiras sem dormir direito.

Talvez por isso o inverno seja a estação mais humana de todas, porque ele escancara desigualdades. O calor excessivo incomoda a todos, mas o frio seleciona seus alvos com mais violência. Ele pune quem não tem teto adequado, agasalho, comida quente. E isso muda completamente a maneira como olhamos para ele.

Ainda assim, continuo esperando o inverno todos os anos. Não apenas pelo conforto das lembranças, mas porque ele me devolve partes de mim mesmo. Há algo de profundamente emocional em ouvir o vento minuano soprando à noite e lembrar do menino que corria sobre a grama branca no interior do Paraná, que passava férias nas Missões, que dormia ouvindo a madeira estalar no fogão a lenha dos avós. O frio tem esse poder estranho de conservar memórias como quem preserva brasas sob a cinza.

Nesta primeira onda de frio de 2026, enquanto o Rio Grande do Sul amanhece outra vez sob os impactos das baixas temperaturas, eu percebo que algumas escolhas da vida foram feitas menos pela razão do que pelos afetos. Permaneci aqui porque aprendi cedo que certas paisagens climáticas também viram morada emocional. E porque, apesar dos dissabores que o inverno inevitavelmente carrega, ainda encontro nele uma forma antiga de aconchego — aquela mesma que começou muitos anos atrás, entre o interior de Missal e as Missões, diante de um fogão a lenha aceso antes do amanhecer."

Por Cristiano Goldschmidt, 14 de maio de 2026.


"O inverno ensina que existem ciclos de silêncio, de espera e
 de interiorização que também são necessários para florescer depois. 
Talvez seja essa a grande lição da estação mais fria do ano — 
a de que até a vida precisa, às vezes, 
diminuir o ritmo para continuar pulsando com verdade."



17.4.25

🍫🐰 A Tradição dos Chocolates na Páscoa

A Páscoa é uma celebração repleta de significados - religiosos, familiares e simbólicos - e um dos costumes mais doces (literalmente) é a tradição de presentear com ovos e chocolates. Mas… de onde vem essa tradição?

📜 Origem da tradição dos ovos de Páscoa

Muito antes do chocolate, os ovos já eram símbolo de vida nova, fertilidade e renascimento em várias culturas antigas. Com o tempo, a Igreja Cristã adotou o ovo como representação da ressurreição de Cristo, já que dele nasce uma nova vida.

Na Idade Média, era comum pintar ovos cozidos e presentear durante a Páscoa, especialmente após o período de jejum da Quaresma.

🍫 Do ovo real ao ovo de chocolate

Foi só no século XIX, na Europa, que surgiu a ideia de fazer ovos de chocolate, graças aos avanços na produção de chocolate moldável. Os franceses e os alemães foram pioneiros, e logo a tradição se espalhou.

No Brasil, a indústria do chocolate abraçou com entusiasmo essa tradição. A Páscoa se tornou uma das datas mais importantes para o comércio, com ovos de todos os tipos, tamanhos e recheios — um verdadeiro festival de criatividade doce!

🐰 E o coelho?

O coelho da Páscoa também vem de tradições pagãs como símbolo de fertilidade e renovação. Como ele é um animal que se reproduz rapidamente, tornou-se um ícone da vida nova, muito associado à chegada da primavera no hemisfério norte.

No Brasil, a imagem do coelhinho foi adotada com carinho — e hoje ele é o "mensageiro" oficial dos ovos de chocolate.

❤️ Mais que chocolate: um momento de afeto

Presentear com ovos de chocolate na Páscoa é mais que tradição — é um gesto de carinho, um modo de celebrar a vida, a renovação e o amor entre pessoas queridas.

É o sabor da infância, da partilha e da memória afetiva.

Coelhinho da Páscoa...


 "Por que o coelho traz os ovos na Páscoa, se coelho nem põe ovo?"

Essa tradição mistura elementos pagãos e cristãos, que ao longo do tempo foram se unindo até formar o imaginário que temos hoje da Páscoa com ovos de chocolate trazidos por um coelhinho fofo.

🐇 O coelho como símbolo da fertilidade e vida nova
O coelho é conhecido por sua capacidade de reprodução rápida, e por isso, em antigas culturas germânicas e pagãs, ele era símbolo de fertilidade, renovação e abundância.
Essas festas aconteciam na primavera (no hemisfério norte), marcando o renascimento da vida após o inverno — muito parecido com o que a Páscoa celebra em termos de espiritualidade: renascimento e esperança.

🥚 Os ovos na simbologia da Páscoa
O ovo sempre representou vida nova em várias culturas.
No cristianismo, passou a simbolizar a ressurreição de Cristo, já que do ovo nasce uma nova vida, como a pedra do túmulo que se abre.
Antigamente, os ovos eram cozidos e pintados à mão, sendo oferecidos como presente na Páscoa.

🐰+🥚 Como essas ideias se juntaram?
Acredita-se que a união do coelho com os ovos tenha surgido na Alemanha, entre os séculos XVII e XVIII.
Os imigrantes alemães levaram essa tradição para os Estados Unidos e América Latina, onde ela se popularizou e, com o tempo, os ovos de chocolate surgiram como forma comercial e deliciosa de celebrar!
Hoje em dia o coelho da Páscoa virou o símbolo querido das crianças, trazendo ovos de chocolate escondidos pelos jardins ou deixados em ninhos improvisados.
É um personagem mágico que representa a vida, a alegria e a renovação, unindo tradição, fé e afeto.


Texto / Imagens Google 

15.3.25

Pintura da Igreja


A melhor vista da Igreja Matriz de Lavras é a dos clientes da Telúrica!
Reza a lenda que há alguns anos, o pároco da cidade pediu aos fiéis que escolhessem
a cor que a igreja deveria ser pintada e deixou as opções no quadro de avisos.
Um cliente da Telúrica, o Marcelão (in memoriam),
 protestou, argumentando veementemente, que, quem deveria escolher a 
nova cor da Igreja eram, justamente, os frequentadores mais assíduos
da pizzaria, e, não, os fiéis! Concordo com isso! Faz todo o sentido!


A nossa Igreja é, certamente, o cartão postal mais bonito de Lavras.
Crédito da foto: Júlio Queiroz.

29.7.21

Minha "Marca de Copas"


Essa marca, desenhada no Certificado, pertencia ao irmão mais moço do meu pai, Walter, e era registrada no município de São Gabriel. 
É uma longa história, mas o desenho de "copas", nas marcas do gado, sempre foi usado pela família Teixeira, em vários formatos e derivações.
Quando vim morar em Lavras, meu pai trouxe um ferro, com a marca do Tio Walter, me mostrou e disse que queria que eu usasse. O Tio Walter, muito querido por todos nós, não teve filhos, e faleceu há alguns anos, e ninguém da família a estava usando.
Então eu precisava registrá-la, na Prefeitura de Lavras. Por coincidência, o Ricardo era, na época, Secretário do Meio Rural - justamente o setor da prefeitura que cuidava desses registros.
Resultado: o meu certificado foi assinado pelo Ricardo. E vai ser devidamente emoldurado e colocado numa parede do nosso galpão.
 
"Marca de copas no couro, queimada prá toda a vida
razão de tempo e lida, com os motivos de encanto
quem tem a marca escrita, na memória deste pago
é tempo enraizado, história e herança no entanto"

- Versos: Ricardo Félix Haas

22.8.20

Chimarrão compartilhado?

Tempos de Covid19 ou cada um tem sua mania, na hora de tomar o chimarrão? 
Qual a resposta certa? 😅


Fiquei lembrando que a minha mãe e o meu pai todas as manhãs tomavam mate juntos, mas em cuias diferentes! 
Ele numa cuia grandona, com a água na chaleira.
Ela numa cuia menor, com água na garrafa térmica.
O pai reclamava que não dava pra tomar mate com a mãe porque ela usava "de microfone", andava pela casa, não sossegava...
Ela dizia que ele tomava mate frio e ruim! kkkk Devia ser, mesmo: sempre que podia ele roubava uma água mais quente da garrafa dela!! Se flagrado, levava uma bronca!!

7.7.18

Escrito em 07/07/2009, para o "Blog Amigos de Pelotas"


Crônica: Amo esta cidade


Ana Lúcia Bulcão Teixeira
Advogada e blogueira

Hoje, 07 de julho de 2009, Pelotas completa 197 anos. Moro aqui desde 1982. Em todos estes anos aconteceram tantas coisas que, se fosse contar, nem saberia por onde começar. O que sei é que só ultimamente descobri a cidade. Não me refiro aos prédios antigos, às ruas bem desenhadas, às praças, ao Laranjal, mas aos recantos menos óbvios, bairros menos movimentados, praias mais desconhecidas. Meu primeiro apartamento foi na Anchieta, pertinho do Capitólio. Foi deste ponto que decidi começar a conhecer a cidade, a pé, no primeiro inverno que passei aqui.

Todos os dias, depois do almoço, escolhia uma rua e ia caminhando, bem devagar, olhando os prédios com suas fachadas cheias de detalhes, as calçadas de ladrilhos hidráulicos, as pessoas apressadas, que pareciam não perceber toda a beleza ao seu redor, as vitrines... Lamento não existir câmera digital naquela época. Teria muitos registros!

Depois mudei para uma casa, ainda na Anchieta, pertinho da Catedral e do Colégio Gonzaga. Ali criei meus filhos e, através deles, minha interação com a cidade aumentou. Eles frequentavam a escolinha, íamos ao teatro Sete de Abril sempre que tinha alguma peça infantil, comprávamos livros na Mundial, lanchávamos no Centro... Tão bom passear pelas ruas próximas e sentar nos bancos do entorno da Catedral para tomar sol! Via a cidade através dos olhos deles, descobrindo tudo, com um prazer imenso!

O tempo foi passando, minha vida acontecendo, trabalhei, fiz muitos amigos, mudei para um bairro afastado do centro e tudo se foi modificando. Aprendi a ver a cidade com olhos maduros e sei o quanto foi bom ter vivido aqui todos estes anos.

É engraçado... Nunca fui boa com datas, números, estas coisas; então, fico perdida, tentando fazer uma retrospectiva de tudo o que aconteceu nesse tempo todo! Mas sou boa em lembranças, sentimentos, emoções e todas as experiências que vivi aqui me fizeram amar esta cidade e valorizar tudo de bom que ela tem.

Talvez por não ter nascido aqui, talvez pelo meu jeito de observar e sentir a cidade, sempre fico com a impressão de que ela não é valorizada como deveria, cuidada como merecia, tratada com carinho pelos próprios pelotenses.

Tudo tão antigo, tão sedimentado! Velhos hábitos, comportamentos que se repetem há décadas! E isso na política, nos meios culturais, no comércio, no cotidiano da cidade! Como se qualquer coisa que pudesse mudar o que já existe fosse ameaçador ou inadequado.

Acho que vou reler "Satolep", do Vitor Ramil, desta vez de trás pra frente, como inspira o título. Quando li, pela primeira vez, senti como se tudo, finalmente, fizesse sentido. Li devagar e não consegui fazer de outro jeito, apesar de querer devorar cada página. “Satolep” precisa ser lido assim, lentamente. Saboreando cada palavra, digerindo cada sensação... Este livro construiu, em mim, um passado que não vivi aqui.

Há pouco dei uma caminhada. Noite com neblina, mas com uma lua enorme espiando entre as nuvens. Gosto daqui. Amo esta cidade. Quero guardar cada paisagem, cada ângulo, cada detalhe. Acredito que é hora de olhar Pelotas com carinho. Retribuir tudo o que ela nos dá. Tanta beleza, tanta história, tantos talentos...

Respirei profundamente, enquanto sentia a umidade na minha pele, e agradeci o privilégio enorme que é morar aqui, pertencer a este lugar.

Blog de Ana.


14 comentários:

Anônimo disse...
Esse nome Bulcão.
A Florinda era linda; esta escreve bem e é linda.

Anônimo disse...
tu diz isso porque não moraste em nenhuma cidade melhor.

Roberto Soares disse...
Pelotas, 200 anos.
Gostaria de começar comentando que o frenesi em torno dessas 'datas redondas' nunca fez muito sentido para mim.
No dia de seu aniversário, Pelotas esteve como quase sempre: úmida e chuvosa, mas mais quente que o normal para esta época do ano.
Uma cidade, em si, quase não existe.
Existem as várias histórias das pessoas que nela vivem.
Aos 200 anos, no cotejo com outras cidades de mesmo porte no resto da Região Sul (RS, PR e SC - o único parâmetro racional de comparação, a meu ver), Pelotas ainda marca passo em vários aspectos: vida cultural, geração de empregos, limpeza pública etc. Não que não tenha melhorado - os governos, por mais que detratem uns aos outros, dificilmente pioram a situação do município.
Mas confesso que, apesar dos belos depoimentos de uns, ainda acho que a impressão pessoal reflete mais um momento da vida particular de quem comenta do que a realidade da cidade, afinal, a vida de um habitante da zona norte é diferente da de um habitante do Porto, que por sua vez difere do cotidiano de um morador do Laranjal, do Centro, do Sítio Floresta, do Pestano, do Fragata...
Colando todos esses retalhos temos a grande colcha chamada Pelotas.
O que me apraz na cidade é, entre outras coisas, essa diversidade.
Pelotas completa dois séculos com muitas perspectivas, mas é cada vez mais necessário que cada pessoa faça a sua parte na sua vida pessoal para que a coletividade mude como um todo.
Que se invista em gente capacitada daqui. Que seja abolido todo o clientelismo, corporativismo, nepotismo, imobilismo, continuismo e "todos esses 'ismos' que nos freiam o autêntico progresso".
Ando meio desesperançoso com essas esperanças depositadas na população.
Da política, então, não espero nada, que não sou bobo.
Só espero que esses cidadãos que dizem amar tanto Pelotas não fiquem apenas no belo discurso, e passem a de fato pensar (e agir) a cidade diferente.
Espero.
Mas, no fundo, sei que me iludo.
Acima de pelotenses, somos (quase) todos brasileiros, e, como Stefan Zweig involuntariamente preconizou em sua obra, o Brasil é o 'país do futuro', e a gente sabe que o 'futuro', via de regra, não chega nunca.
Vivemos num eterno presente.
Infelizmente, é isso que me traz o aniversário de Pelotas, essa cidade a um só tempo tão feia e tão bonita.

Anônimo disse...
Parabéns! Lindo texto. Transmite com perfeição o que um Pelotense pensa de sua cidade. Moro longe, mas meu coração nunca saiu de Pelotas.

Anônimo disse...
Entendo perfeitamente o que falas, eu também nasci e me criei na Anchieta perto do Cine Capitólio, e anos mais tarde criei filhos também na Anchieta perto do Gonzaga. Apesar de tudo gosto da Princesa.

guilherme disse...
Parabéns pois é muito dificil neste blog alguem fala bem de Pelotas. E o que eu acho mais interessante é todos tem horror da cidade, mas não saem daqui e tambem não ajudam em nada para melhorar...

Anônimo disse...
Experimenta morar em Buenos Aires.

Anônimo disse...
Que bom ler um texto escrito com o coração aberto e generoso! Também é bom saber que não temos só críticos e pessimistas que em nada contribuem pra melhorar a imagem da cidade. Já temos um país inteiro com idéias equivocadas sobre a cidade e seu povo. Pintaste a nossa aldeia com cores mais alegres e não menos verdadeiras, contrastes e sombras sempre existem, mas não vivemos só dos tons escuros!

gerson disse...
também não sou pelotense, mas morei bastante tempo na cidade e acabo tendo raízes aí. olhando de fora, parece q Pelotas tem um tempo próprio. As coisas andam de um modo peculiar, o atraso em algumas coisas talvez decorra do modo de encarar a vida e a evolução. A cidade parece não querer a frenética evolução do capitalismo. como moro em SC fico com essa impressão quando comparo Pelotas com cidades "nervosas", q se desenvolvem a olhos vistos, como Fpolis, Joinville, Blumenau, Criciúma, Tubarão e Jaraguá do Sul.
Mas se vou a Lages, mais parecida com nossa cultura campeira, vejo que o trem da história segue de forma mais melancólica. Talvez seja uma impressão falsa a minha, mas não sei se a nossa cultura dessa região do RS está preparada para esse "salto" capitalista. Rio Grande, p.ex., tem atividade econômica relevante mas o paradigma indústria ainda não enraizou a pretendida "modernidade". Basta comparar a cidade com outras, até de menor porte, cujo desenvolvimento econômico dá-se com uma evolução da polis em vários aspectos.
Quanto a Pelotas, com seu problemas e virtudes, ainda gosto do hábito de caminhar pelo centro e ver os amigos, dispensar o carro, ir tomar um café, reunir fácil uma turma para jogar futebol, dar uma passada na faculdade de direito,correr no laranjal, andar sob a neblina q toma as ruas, ir no jogo do xavante, etc,etc.

Anônimo disse...
Tive o privilégio de morar em Pelotas,tenho muita saudades. Faz mais de dez anos que não volto. Vejo que a maioria das pessoas que escrevem neste blog somente fazem críticas a cidade e seus moradores. Como era estudante com parcos recursos não frequentava a roda dos Pelotinos. Quem frequentou - no começo dos anos 90 -, os bares e os lugares que a gente chamava de "terceiro mundo", certamente tem muita saudade dessa terra. A boate do Direito, a baixada, a casa do estudante da Ufpel as passeatas contra Sarney, Collor, etc... são inesquecíveis. Também amo esta cidade.

Bennett disse...
Nasci em Pelotas.
Ganhei o mundo.

R.B

Anônimo disse...
Das 13:00h.
Buenos Aires tem argentinos o que a torna desinteressante.

Anônimo disse...
Quem critica é porque se importa. Quem ignora, deixa tudo como está. O crítico, no fundo, ama sua cidade e quer melhorá-la. O condescendente quer só tirar proveito para si.

Anônimo disse...
Parabenizo a colunista pela beleza de artigo. Em determinada oportunidade ao buscar imagens na NET deparei-me com o blog de Ana e fiquei leitor assíduo e admirador constante. Parabéns!

Meus agradecimentos:

Anônimo do dia 7 de Julho de 2009 21:27
A minha filha perguntou quem é Florinda Bulcão! Acho que as novas gerações desconhecem esta bela atriz!
Somos da mesma família, sim...
Obrigada pelos elogios!

Anônimo do dia 7 de Julho de 2009 22:15
Sou de Lavras do Sul! Sei o que é morar na melhor cidade que existe!
Tá... Brincadeirinha... Mas uma coisa não invalidaria a outra, não é? Mesmo que tivesse morado, Pelotas não deixaria de ser o que é...

Roberto Soares!
Teu belo comentário virou post!
Que bom! Muitas pessoas terão oportunidade de conhecer teu ponto de vista!

Anônimo do dia 8 de Julho de 2009 01:23
Obrigada! O nosso coração deveria ser sempre nosso ímã, nosso Norte!

Anônimo do dia 8 de Julho de 2009 06:41
Que coincidência! Sabe lá quantas vezes nos cruzamos... Coisas de Pelotas, memórias compartilhadas...

Guilherme!
Obrigada! Imagino que as pessoas reclamem porque se sentem frustradas, de alguma forma, em suas expectativas... Que bom ter um espaço para exercitarem sua indignação!

Anônimo do dia 8 de Julho de 2009 13:00
Pois é... Temos muito o que aprender com Buenos Aires! Valorizar a nossa história, preservar o patrimônio arquitetônico, revitalizar o Porto, o Mercado, tratar bem os turistas...

Anônimo do dia 8 de Julho de 2009 14:14
Fico absolutamente agradecida pelo teu comentário! Acho que ver o lado bom das coisas é um belo exercício e me empenho nisso! Recomendo aos pessimistas de plantão!

Gerson!
Concordo contigo!
Tem um charme neste ritmo, nesta melancolia, nestes hábitos...

Anônimo do dia 8 de Julho de 2009 22:34
Devo dizer que não frequentei as "rodas dos pelotinos" tampouco a boate do Direito, a baixada e tudo mais... Quando vim morar aqui já tinha me formado, minha rotina era outra. Mas tudo faz parte, não é? Bom relembrar!

Bennett
O mundo é aqui. Ou em qualquer lugar que vc queira. O bom é poder escolher!

Anônimo do dia 9 de Julho de 2009 09:04
Dizer o quê? (Além de que me diverti, lendo teu comentário?)

Anônimo do dia 9 de Julho de 2009 10:11
Verdade! Só quem se importa faz crítica construtiva. O resto não vale à pena mencionar.

Anônimo do dia 9 de Julho de 2009 21:26
Fico muito curiosa quando alguém diz que acompanha o Roccana! Quero saber quem é, o que pensa, o que acha...
De qualquer maneira, muito bom saber disso! Obrigada!!

Aproveito para agradecer, também, aos emails e as visitas ao meu blog!
Obrigada, Rubens, pela oportunidade!

17.8.15

Que feio, Ana!

Tirar a maquiagem para dormir?
Nem pensar!
Eu retoco!


Outro dia postei esta foto, do panda, no Facebook e rendeu boas risadas!
Pois é. Nunca tiro o rímel para dormir. # Pronto. Falei.
O que não significa que não tome banho! Imagino que não entenderam desta forma! Humpf!
Tomo, sem molhar o cabelo nem borrar a maquiagem! Praticamente uma Sophia Loren!


Demaquilante?
Claro que uso! Pela manhã, quando acordo, com a tal "cara de panda", néammm?
Gosto desses dois:


Devo esclarecer que não uso maquilagem todo o santo dia. Gosto da minha cara lavada!
Por isso, provavelmente, não seja muito cuidadosa com esses rituais de limpar a pele, hidratar, etc.
Mas adoro estar produzida, maquiada...
Se não morresse de preguiça, andava  (e dormia!) sempre assim:


Ai, ai...


***

28.4.15

Os flamboyants, por Rubem Alves

Recomendo a leitura.



"A manhã estava linda: céu azul, ventinho fresco. Infelizmente, muitas obrigações me aguardavam. Coisas que eu tinha de fazer. Aí, lembrei-me do menino-filósofo chamado Nietzsche que dizia que ficar em casa estudando, quando tudo é lindo lá fora, é uma evidência de estupidez. Mandei as obrigações às favas e fui caminhar na lagoa do Taquaral.

Bem, não fui mesmo caminhar. Meu desejo não era médico, caminhar para combater o colesterol. Caminhar, para mim, é uma desculpa para ver, para cheirar, para ouvir… Caminho para levar meus sentidos a dar um passeio. Tanta coisa: os patos, os gansos, os eucaliptos, as libélulas, a brisa acarinhando a pele — os pensamentos esquecidos dos deveres. Sem pensar, porque, como disse Caeiro, “pensar é estar doente dos olhos”. Aí, quando já me preparava para ir embora, já no carro, vejo um amigo. Paramos. Papeamos. Ele, com uma máquina fotográfica. Andava por lá, fotografando. Não tenho autorização para dizer o nome dele. Vou chamá-lo de Romeu, aquele que amava a Julieta. Me confidenciou: “Vou fazer uma surpresa para a Julieta. Ela adora os flamboyants. E eles estão maravilhosos. Vou fazer um álbum de fotografias de flamboyants para ela… Você não quer vir até a nossa casa para tomar um cafezinho?”

Fui. Mas ele me advertiu: “Não diga nada para ela. É surpresa…” Esta história tem sua continuação um pouco abaixo. Recomeço em outro lugar.

As crianças da 3ª série do Parthenon, escola linda, me convidaram para uma visita. Elas tinham estado fazendo um trabalho sobre um livrinho que escrevi, O Gambá Que Não Sabia Sorrir. Queriam me mostrar. Foi uma gostosura. É uma felicidade sentir-se amado pelas crianças. Eu me senti feliz. Aí aconteceu uma coisa que não estava no programa. Uma menininha, na hora das perguntas, disse que ela havia lido a minha crônica "Se Eu Tiver Apenas Um Ano a Mais de Vida"…

Espantei-me ao saber que uma menina de nove anos lia minhas crônicas. Lia e gostava. Lia e entendia. Aí ela acrescentou: “Recortei a crônica e trouxe para a professora…” Confirmou-se aquilo de que eu sempre suspeitara: as crianças são mais sábias que os adultos. Porque o fato é que muitos adultos ficaram espantados e não quiseram brincar de fazer de contas que eles tinham apenas um ano a mais para viver. Ficaram com medo. Acharam mórbido.

As crianças, inconscientemente, sabem que a vida é coisa muito frágil, feito uma bolha de sabão. Minha filha Raquel tinha apenas dois anos. Eram seis horas da manhã. Eu estava dormindo. Ela saiu da caminha dela e veio me acordar. Veio me acordar porque ela estava lutando com uma ideia que a fazia sofrer. Sacudiu-me, eu acordei, sorri para ela, e ela me disse: “Papai, quando você morrer você vai sentir saudades?” Eu fiquei pasmo, sem saber o que dizer. Mas aí ela me salvou: “Não chore porque eu vou abraçar você…”

As crianças sabem que a vida é marcada por perdas. As pessoas morrem, partem. Partindo, devem sentir saudades — porque a vida é tão boa! Por isso, o que nos resta fazer é abraçar o que amamos enquanto a bolha não estoura.

Os adultos não sabem disso porque foram educados. Um dos objetivos da educação é fazer-nos esquecer da morte. Você conhece alguma escola em que se fale sobre a morte com os alunos? É preciso esquecer da morte para levar a sério os deveres. Esquecidos da morte, a bolha de sabão vira esfera de aço. Inconscientes da morte aceitamos como naturais as cargas de repressão, sofrimento e frustração que a realidade social nos impõe. Quem sabe que a vida é bolha de sabão passa a desconfiar dos deveres… E, como disse Walt Whitmann, “quem anda duzentos metros sem vontade, anda seguindo o próprio funeral, vestindo a própria mortalha”.

O pessoal da poesia está levando a sério a brincadeira. Eu mesmo já fiz vários cortes drásticos em compromissos que assumi. Eram esferas de aço. Transformei-os em bolhas de sabão e os estourei. Pois o pessoal da poesia decidiu que, no programa de um ano de vida apenas, num dos nossos encontros não haveria leitura de poesia: haveria brinquedos e brincadeiras. Cada um trataria de desenterrar os brinquedos que os deveres haviam enterrado.

Obedeci. Abri o meu baú de brinquedos. Piões, corrupios, bilboquês, iô-iôs e uma infinidade de outros brinquedos que não têm nome. Seria indigno que eu levasse piões e não soubesse rodá-los. Peguei um pião e uma fieira e fui praticar. Estava rodando o pião no meu jardim quando um cliente chegou. Olhou-me espantado. Ele não imaginava que psicanalistas rodassem piões. Psicanalista é pessoa séria, ser do dever. Pião é coisa de criança, ser do prazer.

Acho que meus colegas psicanalistas concordariam com meu paciente. A teoria diz que um cliente nada deve saber da vida do psicanalista. O psicanalista deve ser apenas um espaço vazio, tela onde o paciente projeta suas identificações. Mas a minha vocação é a heresia. Ando na direção contrária. “Você sabe rodar piões?”, eu perguntei. Ele não sabia. Acho que ficou com inveja. A sessão de terapia foi sobre isso. E ele me disse que um dos seus maiores problemas era o medo do ridículo. Crianças são ridículas. Adultos não são ridículos. Aí conversamos sobre uma coisa sobre a qual eu nunca havia pensado: que, talvez, uma das funções da terapia seja fazer com que as pessoas não tenham medo das coisas que os “outros” definem como ridículo. Quem não tem medo do ridículo está livre do olhar dos outros.

Preparei o encontro de poesia de um jeito diferente. Nada de sopas sofisticadas. Fui procurar macarrão de letrinha, coisa de criança. Não encontrei. Encontrei estrelinhas. Fiz sopa de estrelinhas. E toda festa de criança tem de ter cachorro-quente. Fiz molho de cachorro-quente. E nada de vinho. Criança não gosta de vinho. Gosta é de guaraná.

Foi uma alegria, todo mundo brincando: iô-iôs, piões, corrupios, bilboquês, quebra-cabeças, pererecas (aquelas bolas coloridas na ponta de um elástico)… Rimos a mais não poder. Todo mundo ficou leve. Aí tive uma idéia que muito me divertiu: que na sala de visitas das casas houvesse um baú de brinquedos. Quando a conversa fica chata, a gente abre o baú de brinquedos e faz o convite: “Não gostaria de brincar com corrupio?” E a gente começa a brincar com o corrupio e a rir. A visita fica pasma. Não entende. “Quem sabe, ao invés do corrupio, um bilboquê?” E a gente brinca com o bilboquê. Aí a gente estende o brinquedo para a visita e diz: “Por favor, nada de acanhamentos! Experimente. Você vai gostar…” São duas as possibilidades. Primeira: a visita brinca e gosta e dá risadas. Segunda: ela acha que somos ridículos e trata de se despedir para nunca mais voltar…

Pois a Julieta — aquela do Romeu — me trouxe uma pipa de presente. Vou empinar a pipa em algum gramado da Unicamp. E aí ela nos contou da surpresa que lhe fizera o Romeu. Fotografias de flamboyants vermelhos — que coisa mais romântica! Árvores em chamas, incendiadas! Cada apaixonado é um flamboyant vermelho! E nos contou das coisas que o Romeu tivera que fazer para que ela não descobrisse o que ele estava preparando.

Mas o mais bonito foi o que ele lhe disse, na entrega do presente. Não sei se foi isso mesmo que ele disse. Sei que foi mais ou menos assim: “Sabe, Julieta, aquela história de ter um ano apenas a mais para viver… Pensei que você gostava de flamboyants e que você ficaria feliz com um álbum de flamboyants. E concluí que, se eu tiver um ano apenas a mais para viver, o que quero é fazer as coisas que farão você feliz…”

Um ano apenas a mais para viver: aí os sentimentos se tornam puros. As palavras que devem ser ditas, devem ser ditas agora. Os atos que devem ser feitos, devem ser feitos agora. Quem acha que vai viver muito tempo fica deixando tudo para depois. A vida ainda não começou. Vai começar depois da construção da casa, depois da educação dos filhos, depois da segurança financeira, depois da aposentadoria…

As flores dos flamboyants, dentro de poucos dias, terão caído. Assim é a vida. É preciso viver enquanto a chama do amor está queimando…"


"Quem não tem medo do ridículo está livre do olhar dos outros."

28.7.11

A Estância da Guitarra

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Recebi um email, do Alcides, sobre o Taj Mahal Argentino e fiquei impressionada. Pesquisei e achei um blog que conta toda a história:

"Quando sobrevoam esses campos nas Pampas argentinas, os pilotos observam com curiosidade as alamedas desenhadas com eucaliptos e ciprestes compondo o enorme instrumento de cordas, tão ligado ao folclore da região.

Foi desse modo que Pedro Martín Ureta exteriorizou seu amor pela sua Graciela, falecida há 34 anos. O fazendeiro, hoje com 70 anos, usou 7.000 mudas para compor o bosque em homenagem a ela."

Leia o texto na íntegra no Jardim das Idéias. É uma história muito bonita.



10.9.10

Recado de marinheiro para sereia

Mário Pirata

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"Acontecia-me ficar assustado com o jeito como decifravas e mostravas a rota para minhas palavras e meus gestos. Com facilidade tiravas coisas lindas minhas, aos borbotões. Precisavas apenas de calma, e de segurança, para os teus mimos. Que eu pegasse tuas mãos com firmeza e te mandasse sossegar o facho, te fizesse parar de rebolar as tranças.

Eu deveria ter te aninhado no colo, te dado umas palmadas e calado tua boca com beijos e enfiado apenas poesia em teus ouvidos – te escutado mais, te observado com mais cuidado. E me preocupado menos com os meus desejos e aflições.
Fiquei ansioso e confuso, desconfiado com a beleza tamanha da nossa façanha de amor. Pisei na bola, chutei pra fora! Você também, também correu assustada entre as marés.

Teu olhar se afastou de mim, afastei teu olhar do meu, e desde então me sinto um barco perdido. Felizmente, carrego o tesouro das coisas que ganhei das tuas mãos.
A pele guardava sob o desejo as especiarias da emoção de duas pessoas fortes, e também frágeis. E lindas. Essas me fazem continuar navegando na direção do sol. Conheci e tive ao meu lado quem eu precisava, queria e merecia. Isso me faz bem alegre.

Já fiz na vida um tanto de coisas, umas boas, outras nem tanto. Mas deixar a mulher da minha vida voar para longe foi uma das maiores bobagens que cometi. O barco segue na direção do horizonte. Velas içadas, a bandeira no mastro, desfraldada.
Mas a paisagem já não é a mesma. E os golfinhos já não me acompanham. Sequer as gaivotas."

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(Imagem do Google.)



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