Guimarães Rosa falou lindamente sobre isso:
"O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem."
A noite ronda a querência
Prenúncio de vento e geada
E a tarde que fez morada
Num pôr de sol colorado
Reponta um lote de gado
Que corta a invernada ao meio
No instinto primitivo
De vir dormir no rodeio.
Até os cuscos do rancho
Se misturam com a peonada
Que guapeiam a noite braba
Tentiando o fogo de chão
A cuia de mão em mão
Num gesto rude e fraterno
Aquece o peito gaudério
No tempo brabo de inverno.
Um potro junto ao galpão
Relincha como sabendo
Que o dia que está morrendo
No poncho da noite negra
É outra manhã que chega
Com rodeio e campereada
Na lida bruta de campo
E patas quebrando geada.
O minuano debochado
Por entre as frestas assobia
E esta xucra melodia
Inspira versos e rimas
Atira cinza pra cima
Neste bailado sem fim
Revirando os picumãs
Agarrados no capim.
Num repente uma cordeona
Acorda o galpão inteiro
No improviso do gaiteiro
O verso abre a cancela
E o timbre forte da goela
Quebra o silêncio e a calma
Dizendo coisas bonitas
Que brotam dentro da alma.
Mais tarde nas horas mortas
Reina o silêncio nas casas
E o angico vira brasas
No borralho fumacento
A noite num passo lento
Até parece que parou
Pra enxugar o pranto de geada
Que a madrugada chorou.
Assim que clareia o dia
Fogo aceso, mate recém cevado
Eu me paro emocionado
Diante de tanta beleza
E vejo a mãe natureza
Nos mostrar o que é capaz
Que a geada é a bandeira branca
Do campo pedindo paz!
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Tem um tanto de história,
Em cada peça guardada.
Tem afeto e tem memória
Das lidas que foi usada
Um relho, é apenas um relho
Que parceiro de campereada
Sempre trazia um conselho
Prá onde se ia na estrada.
Rabicho recuerdo esquecido
De uma zaina bem domada
De um color bem parecido
Com a sela um tanto sovada
E as três marias parceira
Na cintura andavam atada
Ter destino de boleadeira
Uma pedra índia, retovada
E assim hoje numa parede
Uma herança dependurada
Que vem nos matar a sede
Nesta Querência renovada.
Onde meu braço descansa
E alcança bem mais que quero
Na rotina que dia após dia
Se aquerencia tudo que espero
Que então venham mais outros
E por poucos seguem somando
Nas tantas datas que teremos
E seguiremos assim namorando.
"que a vida é breve, eu sei
que teus versos são moradas
também sei
sei também que quando me olhas
com todos os teus olhos
me diz sempre o exato
a medida certa
e que quando me abraça
são tantos braços que cobrem
que a noite fria nem percebo
e ainda sei que teu sorriso
combina com o meu
e que são sempre mais bonitos
quando juntos estamos
e além de tudo, ainda sei
que quando estás ausente
muito do mundo se desfaz
se perde numa saudade
de uma linha do tempo
de um vento que passou
e eu nem vi"
"De que são feitos os dias?- De pequenos desejos,vagarosas saudades,silenciosas lembranças."
"Eu moro em mim.Sempre deixo as janelas entreabertas pra sentir o sopro de raros afetos.A porta? Só abro para poucos.Todos os dias, eu percorro meus cômodos, corredores e contemplo a vida pela varanda.Mas, as gavetas...Ah... As gavetas?Ainda não dá para abri-las.Senão, acabo tendo que morar dentro delas."
Soneto XIII
Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...
E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"
E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.