27.9.26

Água no Fogão

Toda manhã eu me levanto cedo,
Vou lavando a cara, água no fogão
Boto o rádio numa FM
Dessas que se perdem por um milongão

Lá vem o Jayme declamando uns versos
Se eu tava disperso, já não to mais não
Um Guarany vem me contar segredos
E eu percebo as coisas que tenho na mão

Eu sinto em mim uma Felicidade
Que só Lupicínio pôde descrever
Veio do campo, ganhou a cidade
E eu sei que me invade meio sem querer

Quero domingo uma guerra santa
Pra incendiar o "Porto", que vai ter Grenal
Enquanto isso nos fundões do estado
A plateia vibra "nalgum" festival

Rica essa terra que vem qual enchente
Carregando a gente pra tanto lugar
Olha dois "loco" tangueando tragédias
Nos mostrando a Sbórnia que há no seu cantar

Coisa mais linda ter um Silva Rillo
Pra rodar seu canto por todo Brasil
Fazendo rima com essa força "loca"
Que verte da boca dos irmãos Ramil

Vi como o mundo fica diferente
Quando a alma sente o cantar da Elis
Vi como o Oscar quase achou seu trilho
Rumando pra serra do sul do País

Água ferveu, vou esquentar de novo
Mas vi que este povo tem amor ao chão
E eu sigo ao tranco dessa FM
Que quase se espreme noutro milongão!



"Cotidiano e cultura gaúcha em “Água no Fogão” de Pirisca Grecco

A música “Água no Fogão”, de Pirisca Grecco, destaca como o cotidiano simples do gaúcho está profundamente ligado à cultura do Rio Grande do Sul. O ato de “lavando a cara, água no fogão” serve como ponto de partida para explorar referências marcantes da região, mostrando que a identidade local se constrói tanto nos pequenos hábitos quanto nas grandes paixões. A menção a Jayme Caetano Braun declamando versos no rádio não é apenas uma homenagem, mas também um símbolo de como a poesia e a tradição oral fazem parte do dia a dia e mantêm viva a memória coletiva.

A letra cita nomes como Lupicínio Rodrigues, Silva Rillo, os irmãos Ramil e Elis Regina, reforçando que música, poesia e futebol (representado pelo GRENAL) são pilares afetivos e culturais do povo gaúcho. O verso “Quero domingo uma guerra santa / Pra incendiar o Porto, que vai ter GRENAL” expressa a intensidade da rivalidade esportiva, enquanto “Olha dois loco tangueando tragédias / Nos mostrando a Sbórnia que há no seu cantar” faz referência ao espetáculo “Tangos e Tragédias” e à Sbórnia, misturando humor e crítica social. Ao mencionar “um Guarany vem me contar segredos”, a música evoca tanto a herança indígena quanto a ópera de Carlos Gomes, ampliando as influências culturais. Assim, “Água no Fogão” celebra a diversidade e a força da cultura gaúcha, mostrando que até nas tarefas mais simples existe um sentimento de pertencimento e orgulho regional."

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