15.2.06

O Carnaval de Lavras

No interior do Rio Grande do Sul, um carnaval diferente! Pura festa e alegria! Chega a ser exaustivo, com sua programação intensa: desfiles, churrascos, passeatas e apresentações que acontecem durante todos os dias e todas as noites de Carnaval.

.......... ...
............ ........
..........
O centro da cidade vira um grande salão de baile, com muita música e tanta gente que sempre surpreende, porque a cada ano parece aumentar o número de pessoas que vai passar o carnaval em Lavras.

............

............
Inúmeros blocos desfilam suas camisetas, sendo os mais tradicionais Os Relaxados e o Vai de Qualquer Geito - VG, o meu bloco do coração! Antes de tudo é um reencontro - dos que moram na cidade com que os que retornam... E é um reencontro com a alegria, um jeito de matar a saudade ou de senti-la, ainda mais forte!

Se não for agora, quando?


O olhar da Kika...

"Se não for agora, quando? Tem hora de parar e tem hora de partir, tem hora de permanecer quieto e calado num canto, e tem hora de cantar e de voar. Agora, agora não é hora de dobrar as asas, nem de calar a voz, nem de catar gravetos para fazer o ninho. Agora não é hora de sentir remorsos, nem de buscar consolo, nem de caiar o túmulo. Agora que estou na beirada, bêbado de alegria e pronto para o salto, não me segure em nome de nada. Não queira impedir-me dizendo que é muito cedo, ou que é muito tarde, ou que está escuro, é perigoso, muito alto, muito fundo, muito longe... Não! E se você não puder incentivar-me para o salto; se você não puder empurrar-me em direção à Vida, então não me segure, não me prenda, nem me amarre. Não envenene com teu medo a minha dança. Seja só uma silenciosa testemunha desta vertigem. Porque agora, agora é hora de voar, é hora de abrir-me a todas as possibilidades. E saltar num vôo livre e sem destino para dentro de mim mesmo."
.
Dedico estas palavras ao Dude e a Kika!
Edson Marques http://mude.weblogger.terra.com.br/

Lavras do Sul, Terra do Ouro

............

Lavras é uma pequena cidade, situada na região da Campanha do Rio Grande do Sul e banhada docemente pelo Rio Camaquã. Este rio, além de ter o ouro em seu leito, enfeita a paisagem com as águas do Paredão.

............

O povoamento começou em torno de 1825 e, no local onde havia a primeira capela, hoje tem a Igreja - bem no coração da cidade. É onde tudo acontece. Tem a pracinha, o Clube, os bares onde todo mundo marca encontro pra conversar e filosofar sobre algumas questões fundamentais: política, carnaval, futebol, em maior ou menor intensidade, dependendo da época do ano.

...............

Acho que todos os lavrenses tem algumas coisas em comum: um humor apurado, uma extraordinária capacidade de rir da sua própria desgraça, voacação para fazer crítica e auto crítica, gosto pela palavra e pela discussão de idéias, amor às tradições e um bairrismo assumido e escancarado! E justificado, claro!

..............

O inverno em Lavras é sempre rigoroso! Lembro da geada e do frio que deixava todo mundo encarangado!! Mas no verão a cidade se aquece e se alegra com a chegada daqueles que moram fora e vem, ano após ano, matar as saudades e se reabastecer da energia da terrinha.
.
"Aqui eu volto outra vez
visitar meus amigos
cevar com erva nova
momentos antigos
beber a poesia
da luz da manhã
matar minha sede
no Rio Camaquã..."
.
Edilberto Teixeira

14.2.06

Charges e Chargistas




Se liberdade de expressão não é um tema simples, retratar com um humor as mazelas e acontecimentos de uma cidade é um dom.
Pelotas é privilegiada, porque conta com o olhar e o traço de André Macedo.
Suas charges são extremamente inteligentes, oportunas e com um humor universal, imprescindível, mas com a compreensão, o sotaque e o sabor de Pelotas.
Na minha opinião, melhores que os doces, porque, além de tudo, não engordam!

Chimarrão na praia...



Ele não é um doce?


http://www.andremacedo.com.br/

http://www.diariopopular.com.br/




13.2.06

Gu³ ... Sou fã!!

.........................
Guga - Inteligência, humor rápido e criativo.
(Se mais não elogio, é porque é meu irmão! Hehehehe!)


.........................
Gujo - Letrista maravilhoso, pura inspiração e poesia

.........................
Guto - Uma voz que encanta... Excelente intérprete e compositor

Reuni os três aqui porque está chegando o Carnaval - momento em que eles esquecem as suas atividades do ano inteiro, se juntam à equipe da Rádio Galocha e, simplesmente, dão show de talento, criatividade e humor da melhor qualidade no Carnaval de Lavras do Sul.
Riso fácil, discussões intermináveis, polêmicas e muitas histórias fazem, destes encontros, momentos de pura alegria.
Reuní os três aqui hoje porque seus apelidos são parecidos e porque pretendo falar muito mais, neste mês de fevereiro, de todo mundo que faz parte do Carnaval de Lavras, do VG e da Galocha!
... E porque adoro estes três malucos!

Embalagem é tudo!

Frequentei um curso de pintura durante algum tempo. Era maravilhoso. Não só pela possibilidade de mexer com cores, telas e suas infinitas possibilidades, como pelas pessoas que conheci. Algumas cheias de talento, só aprimorando sua técnica e exercitando possibilidades e efeitos. Outras pareciam estar alí pra passar o tempo em uma atividade lúdica e prazerosa. Um monte de mulheres interessantes que passavam algumas tardes juntas, contando experiências e falando de vários assuntos. Mulher é facinha pra conversar e vai falando na vida, contando histórias... Algumas sérias, outras divertidas...

Eu tinha uma colega linda e loira. Chique demais! Elegante demais! Nela tudo era impecável, tudo combinava. A bolsa com os sapatos, o esmalte com o batom, a echarpe no tom dos brincos, maquiagem perfeita, roupa vistosa, perfume e atitude de mulher que gostava de se arrumar e prestava atenção nos detalhes.

Ela contava esta história com muita graça: num exame médico de rotina, precisou fazer alguns exames. Entre eles, exame de fezes. Ela passou no laboratório, pegou o potinho esterilizado e, no outro dia cedinho, "colheu o material". Ela mesma decidiu que o levaria ao laboratório e ficou pensando onde colocaria o potinho para levar até lá. Lembrou, então, "num momento de pura inspiração", que tinha um "estoque de embalagens pra presentes, vistosas, lindíssimas, decoradas com laçarotes, enfim, de extremo bom gosto" (detalhes que ela fazia questão de salientar!). Colocou o potinho dentro de uma das mais bonitas e se encaminhou (ou desfilou) para o laboratório, que ficava numa rua central e movimentada.

Pois não é que, quando ia entrar no laboratório, um rapaz, pensando se tratar de algum objeto de valor, lhe arranca o pacote das mãos e sai em disparada, roubando, em plena luz do dia e em meio a transeuntes, o pacote da minha amiga?!

Ela conta que levou um susto, "ficou em choque" e demorou um pouco a assimilar o que tinha acontecido. Mas quando se deu conta da surpresa que ele teria ao constatar o "produto do roubo", começou a rir. Gargalhar. Passou mal de tanto rir. Juntou gente. Ela esqueceu que era chique e sentou no degrau da calçada. Riu muito! Chorou de rir! Escorreu a maquiagem, se despenteou, precisou de ajuda pra se recompor...

E até agora, passados alguns anos, ela ainda ri muito enquanto conta esta história! Que, com certeza, só poderia ter acontecido com ela!


********************************* *****

Pegue o livro mais próximo

Gostei da brincadeira da Fal:
( http://www.dropsdafal.blogbrasil.com/ )
Vamos lá:
1. Pegue o livro mais próximo de você
2. Abra o livro na página 23
3. Ache a quinta frase
4. Poste o texto em seu blog junto com estas instruções



"Nos primeiros anos quase tudo foi obra do ambiente em que nasci: família, escola, janelas pelas quais me ensinaram a olhar, abrigo ou prisão, expectativa ou condenação."

Lya Luft Perdas & Ganhos

12.2.06

Dude&Kika

...............

Quando penso nos meus filhotes sinto um amor tão grande que não cabe dentro de mim! São a melhor coisa que me aconteceu.
Quando olho pra eles tenho a sensação de felicidade, plenitude, realização, de ter feito a coisa certa. Porque eles são lindos, determinados, têm personalidade, caráter, são do bem... Nada me cobram, mas eu acho que estou em dívida. Há tanta coisa que gostaria de proporcionar a eles... Mas fico apaziguada quando penso que me sinto em dívida de coisas materiais...
Posso estar enganada – ou me enganando, mas sinto que dei todo o amor e toda a atenção e todo o tempo e toda a minha disponibilidade e tudo o que sei e contei todas as histórias e cantei todas as cantigas de ninar... Sei que estive presente, próxima, acessível, amorosa. Sei que comprei todas as brigas, que impus os limites necessários, dei as broncas que mereceram. Sei que fui sincera, respondi os porquês do melhor jeito que sabia, que alertei, que dei liberdade, que soube deixar que suas personalidades e vocações e vontades viessem à tona, influenciando o menos possível... Sei o quanto me custou deixar que crescessem, que saíssem, que caminhassem em direção a vida... Porque gostaria de tê-los sempre muito perto, protegidos, seguros... Ao mesmo tempo me orgulho quando vejo que são seguros pra caminharem sozinhos!
O Dude tão sedutor... Olhos pretos, sobrancelhas escuras, bem desenhadas... Ele nem sabe o quanto é bonito! Gosto do jeito como ele se veste, o jeito que caminha, a postura... Adoro quando ele toca violão pra um monte de gente, enfrenta o público, canta de um jeito lindo!! Adoro quando ele toca só pra mim!!
A Kika tão doce... Olhos verdes, iluminada... Ela sabe como é linda!! E gosto do jeito como lida com isto, sem vaidade, sem ser pretensiosa... Faz mil amigos, de todos os lugares, todas as idades... Ela é perfumada, é leve, é alegre, é festeira, é sensível... Tem sido tão importante na minha vida, nas minhas decisões... Ela me dá coragem! Me inspira! Me motiva!
Tudo de bom à minha dupla!! Dude&Kika!!!

Em 05/11/2004

satoleP

******

Moro em Pelotas, mas gosto mais de satoleP...

"Satolep é uma bela cidade, fria e úmida, situada no fim do fundo da América do Sul, às margens da Lagoa dos Patos. Suas ruas que avançam para um norte ou um oeste aproximados, terminam no campo; as que vão para um leste ou um sul, num mesmo lento e silencioso rio.
Os campos do oeste metamorfoseiam-se, aos poucos, num intrigante conjunto de morros que abriga pedras, cachoeiras e árvores frutíferas. Os campos do norte são grandes latifúndios que o asfalto das estradas federais costura. Atravessando o rio no sentido leste, chega-se ao areião de uma praia; no sentido sul, à uma planície radical.
A umidade de Satolep é a maior do mundo."

"O calçamento perfeito e o traçado rigoroso das ruas o excitaram pela manhã; à tarde, a delicadeza das fachadas contra o horizonte selvagem da planície o emocionou; quando escureceu, superfícies úmidas espelhadas numa geometria de sombras cambiantes puseram-no a imaginar e conceber tantas coisas que, embora falasse sem parar, não encontrava tempo de descrevê-las para mim."

"Satolep revelada na radicalidade dos ângulos retos; infalível como o relógio alemão na torre sobre o mercado; espalhando-se ao redor como um argumento inexorável."

(Trechos de Satolep, livro inédito de Vitor Ramil)

"No fundo, isso tudo é apenas o que o meu olho inventa: Satolep."

( Trecho de A Estética do Frio de Vitor Ramil)

O vigésimo nível



O Júnior me encanta...
Pela sua busca, pela sua sensibilidade e porque tem o dom de dividir o que sabe... E ele sabe reconhecer uma palavra, um gesto, um sinal... Chegamos a conclusão de que as palavras chegam pra quem está pronto pra entender... Não precisamos nos angustiar em demasia, nem sofrer por antecipação quando não somos entendidos... Simplesmente pode ainda não ser o momento. Mas ele chega! E se tocar alguém, é perfeito!


Ah, Poeta!

"ana é de lua
em fases insanas
una e múltipla
ana em anas e anas:
beltranas cicranas
fulanas ciganas
a lua de ana
é de loba grávida
ana uiva ana ávida
por gomo de cana
caldoce e mel
parindo estrelas
em sombras de dúvidas
e ana é dádiva
e ana é vida
ana doidivana
puritana ana
luz se dá
lúcida ana
ana serena
ana ao luar
ana é de lua
em cio e ciclo
ana lunar"
.
Estes versos me foram presenteados por um poeta que admiro muito.
Segundo ele, "Insights sem copyrights de Flavius Josephus de Almeida".
.

Nó(s)

** **




Espetáculo da coreógrafa Deborah Colker / Fotos Flávio Colker
"É quase um olhar sobre o próprio nó de relações humanas. "

Abraço

"Quando se encontraram novamente, nada mais poderia ser feito. Os dois se queriam tanto que, quando ele a abraçou, sentiu que estava protegido, acolhido, que aquele era o melhor lugar do mundo para estar. "

Adoro as coisas que Samarone escreve...
http://www.estuariope.blogspot.com/

Figos, figadas e suas consequências

Cordilheiras. Calor, mormaço. Eu e Carmen entediadas... Era hora da sesta no galpão e dentro de casa... Cedo demais pra tomar banho de arroio. Nada, absolutamente nada pra fazer...
Perambulamos pela volta da casa. Silêncio. Nem as árvores se moviam naquele calor de depois do almoço.
Eis que olhamos uma figueira carregadinha! Idéia! Vamos fazer doce de figo! Ação! Embrenhamos-nos por entre os galhos, ignorando o fato de que os figos ainda estavam verdes. A seiva branquinha escorrendo dos galhos cortados dava certa coceira na pele... Depois de colhermos uma quantidade razoável nos sentamos pra descascar as frutas... Ninguém tinha nos avisado, mas o contato com a casca dos figos afina a pele a ponto de arder... Desajeitadas, nos cortamos os dedos, mas agüentamos firmes, amassando tudo com um garfo! Hora de fazer o fogo no chão e por os figos com açúcar a cozinhar. A Carmen e eu carregamos a lenha, trazida de uma lenheira que não ficava muito perto de onde estávamos... Fogo e fumaça, mão de obra danada, mexendo a figada e uma brasa cai em cima do pé da minha amiga. Ela estava entusiasmada e, apesar da bolha que se formou, não me abandonou naquela árdua tarefa. Demos a nossa figada por pronta, servimos em pratinhos e comemos ainda quente. Delícia!
E pronto: voltamos ao tédio... De novo nada pra fazer!
Decido: doce de figo! Figos inteiros, na calda. E lá vamos animadas, colher mais frutas. Do lado da figueira tinha uma tela, onde ficava o galinheiro. Um galho carregadinho de figos pendia pra o outro lado. Decidi entrar lá pra apanhar aquelas frutas. Só que bati com a cabeça numa casa de camoatins que, enfurecidos, me picaram o corpo todo e se enredaram nos meus cabelos. Saí correndo, derrubei tudo e tirei tampos dos dois joelhos!
Fui socorrida, tiraram os ferrões e cuidaram das minhas feridas... Foi quando comecei a sentir náusea... Aquela figada definitivamente não estava me fazendo bem! Que mal estar!
Saldo da tarde: coceiras nos braços, dedos sangrando, cortes nas mãos, um pé queimado, dois joelhos esfolados, infecção intestinal e um monte de picadas de camoatins!!
Passei muito mal, tive febre e fiquei de cama. E a Carmen, solidária, ficou o tempo todo do meu lado, enquanto ainda comia pequenos pedaços açucarados da figada que sobrou...

Preces



Cada vez me lembro mais de coisas da minha infância. Algumas coisas são hilárias! Por exemplo: rezar a Ave Maria. Eu começava bem: "Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco... " Convosco?! Eu achava que significava alguma coisa do tipo o Senhor é bondoso, ou o Senhor é bonzinho...

Sou do tempo em que a missa era rezada em latim!! Oh Céus! Tudo tão incompreensível e as pessoas tão concentradas, com as cabeças baixas e caras de culpa!! Fiz a Primeira Comunhão junto com a minha prima Lala e, até hoje, lembro do esforço dela em listar seus pecados, como se, quanto maior a lista, mais importante ficasse aquele Sacramento! Uma questão de status!!

Por estas e outras decidi que nunca ensinaria estas orações pra meus filhos nem os induziria pra qualquer tipo de religião ou me anteciparia às suas decisões de fé e espiritualidade. Mas sempre rezei antes de dormir e sentia vontade que eles tivessem seu momento de oração, associado à alegria, à gratidão e à reflexão.

Então, todas as noites, agradecíamos ao Papai do Céu todas as coisas boas que eles iam lembrando e eu procurava ajudar na lista: o dia de sol - ou a chuva que tinha caído, os passarinhos, as flores, os amigos serem tão divertidos, a professora ter tanto a ensinar... Eu lembrava como era bom eles terem tanta saúde, a visão perfeita, poderem correr, brincar, ouvir, falar, serem inteligentes, aprenderem tantas coisas... A lista ia ficando interminável!

Se eles estivessem sem sono e me quisessem por perto, cada vez lembravam mais coisas pra agradecer: terem uma casa limpinha, avós maravilhosos, tantos primos, bicicletas pra passear, livrinhos pra ler, a nota boa no trabalhinho da escola, os programas preferidos na TV, o dentinho que tava nascendo, o banho ter sido demorado, a pipoca ter estourado todinha...

Até hoje lembro do esforço que precisava fazer pra não rir de algumas coisas inesperadas que eles lembravam e a vontade que tinha de beijar muito os dois e de quanto era agradecida por estar vivendo aqueles momentos!

Sol e Lua

Recebi do Rafael esta imagem de um pôr de Sol no Polo Norte onde a Lua simplesmente roubou a cena...

11.2.06

Algumas coisas sobre mim

Nasci cercada de muita ansiedade, porque meus pais tinham perdido a primeira filha de um jeito que até hoje não entendi.

Tive a melhor babá do mundo. Era dela o melhor colo, toda a disponibilidade e todo o carinho... Eu e a Teresa ficamos juntas até os meus 22 anos!! (??!!)

Morei, até os seis anos, um pouco nas Cordilheiras e um pouco em Lavras, na casa dos meus avós maternos. Cresci cercada de adultos por todos os lados. Meus dois irmãos Valério e Pigue nasceram quando eu tinha quatro e cinco anos, respectivamente.

A vinda da Carmen pra nossa casa, quando eu tinha uns sete anos, foi um presente que a vida me deu. Ganhei uma cúmplice! Ela era esperta, ágil, criativa, jogava futebol melhor que todo o time dos meus irmãos! E era cheia de paciência e humildade... Tão linda!

Lembro mais da minha infância depois que fomos morar na casa dos meus pais, recém construída. Tive muita liberdade porque minha mãe não se importava com bagunça e com a casa cheia de crianças. Os dias eram pequenos pra tantas coisas que queríamos fazer. Não assisti TV até os doze anos, quando finalmente Lavras entrou no século 20 e a família inteira se sentava na frente da única TV pra assistir "Irmãos Coragem"!

Mas íamos ao cinema todos os domingos. Era sagrado. (Assisti a Noviça Rebelde oito vezes!)

Tive dois apelidos: Badinha e Dudu. Alguns tios ainda me chamam de Dudu.

Sempre passei férias na casa do meu avô Augusto. Pandorga, horta, andar a cavalo, tomar banho de cachoeira, comer butiá, dançar tango (ele cantarolava: “de um tropeçô, levou la vida...”), ouvir histórias, olhar pro céu, desvendar o céu, entender a vida. Com ele tudo era explicado. O vento no aéreo, a pimenta em conserva, a água que subia “sozinha" até a caixa d'água tão alta, o tempo de plantar e de colher, a germinação, o leite da vaca, o cordeirinho que acabara de nascer, o trajeto do sol, as fases da lua, os satélites artificiais, as noites estreladas, o Cruzeiro do Sul, o binóculo, o termômetro, o medidor da água da chuva, a marcenaria e - a glória: dirigir o seu fusca vermelho!! Yeesss!!

A vó era só recomendações: não ficar no sol, não esquecer de pegar o casaco, não comer fruta verde, não correr as galinhas! Hehehe! Mas trazia pão de casa, chocolate quente, contava histórias, ensinava, dava conselhos... Minha avó era uma feminista! Ela ainda é bonita, aos 96 anos!

Minha adolescência foi um caso a parte. Eu era desajeitada e nenhum pouco interessada nessas coisas que as adolescentes se preocupam hoje. Não havia consumismo, preocupação exagerada com roupas, grifes, dietas, aparência física... Gostava de ficar sozinha, mas, aos poucos, fui conhecendo amigos que viraram a minha turma, que se mantém até hoje.

Parodiando Cecília Meirelles posso dizer que a minha mãe era uma mulher de fases. Andava a mil, fazia um monte de coisas, falava muito, inventava programas, passeios, tocava gaita, ouvia música, ria alto, se arrumava, agitava!! Depois calava, sumia, entristecia, se deprimia... Eu não entendia nada...

Tive meu primeiro namorado aos 13 anos. Casei com ele.

Adoro chocolate.

O primeiro poeta que li foi Vinícius: “de tudo, ao meu amor serei atento”...

Descobri que meu pai sabia tudo de história! E contava aquilo que os livros não contavam! Era uma delícia! Meu pai tão cheio de "voltas", de intenções, de planos, de ideias... Sempre me pareceu tão vivido, tão experiente, tão seguro. Ele é observador, inteligente, sagaz e extremamente generoso! Ele conseguia antecipar todas as bobagens que eu e meus irmãos iríamos fazer e, mesmo assim, estar do nosso lado, sem grandes cobranças!

Aos quatorze, li contos de Shakespeare resumidos e traduzidos por Mário Quintana. Nessa época li muitos livros, sem nenhum critério. Li tudo o que encontrei lá nas Cordilheiras, nas intermináveis férias de verão.

Aos quinze tirei o aparelho dos dentes. E as sobrancelhas. Que lástima!

Aos dezesseis fiz minha inscrição pro vestibular. Surpreendentemente passei e adorei o curso. Ou o lado filosófico do Direito. Ou aquilo que não era nada prático, digamos, assim! Escolher uma carreira com aquela idade não funcionou.

Estágios em Brasília e, imediatamente, em Roraima foram experiências marcantes e absolutamente antagônicas. Fiquei em Brasília num hotel maravilhoso, só mordomia e ar condicionado. Circulando entre a Câmara e o Senado e vendo aqueles senhores engravatados que faziam as leis. Roraima me fez ver a selva, os índios e um Brasil diferente, carente, isolado, que falava inglês e se sentia à parte.

Adoraria ter viajado mais, conhecido outros lugares...

Aos vinte e dois anos me despedi de Santa Maria e de alguns sonhos.

Casei com vinte e quatro. Adorei os preparativos, experimentar vestido de noiva, chá de panela, festa, casa nova, vida nova. Acho que voltei a brincar de casinha.

Com vinte e seis anos tive o Dude. Com vinte e oito a Kika. Não consigo separar as duas experiências. Mergulhei nas duas gestações, cheiro de filho, amamentar, ninar, cuidar, ver crescer, tão lindo! Emocionava-me ao ver meus filhotes dormindo, as primeiras palavras, a proximidade... Fui mãe tempo integral, exagerada, emocionada, feliz!

Precisei fazer terapia pra deixar os dois respirarem!!

Comecei a trabalhar num banco em 1995. Admirável mundo novo! Sair de casa com o coração apertado e todas estas coisas que todas as mães que trabalham fora fazem... E enfrentar ambiente de trabalho, informatizado, globalizado, cheio de cifras e metas... Foi complicado! Mas foi muito bom! Descobri que adoro gente, colegas, clientes, me relacionar.

Mas também adoro ficar sozinha. Silêncio é tudo!

Fazer quarenta anos foi um marco. Questionei a minha vida, revisei tudo e me deu uma urgência de fazer tantas coisas!

Comecei desconstruindo... Saí do meu trabalho e, com quarenta e sete anos, me separei...

Sou capaz de focar em alguma coisa que me apaixone e esquecer todo o resto...

Sempre, sempre tomo café na cama. Eu mesma faço, encho uma bandeja e volto com ela pro quarto.

Descobri a dor de perder alguém que amava muito. E isso também foi definitivo.

Ando meio paralisada, preciso me reinventar.

Rótulo

.


Não vim com rótulo. Modo de usar. Indicação. Não sei pra que sirvo. O que contenho. Se curo ou enveneno. Se tenho prazo de validade.
Se alguém se propõe a falar sobre mim, escuto, com o maior interesse. Quero saber alguma coisa - qualquer coisa a meu respeito! Leio atentamente o que dizem os astros, as características dos leoninos, tentando ver se me enquadro. Ou procuro me entender no horóscopo chinês onde descobri que sou Cão. Me investigo nas linhas da minha mão, proféticas e emaranhadas. Nos olhos do psiquiatra enquanto ele me fixa esperando uma palavra que não ouso articular. (Ah, meu Deus! O que ele sabe que eu não sei?!) Tento me descobrir no espelho, mas é onde mais me confundo! Já me procurei em agendas antigas, em cartomantes, ciganas, em regressões a vidas passadas.
Me busco no eco das Cordilheiras, na pracinha onde eu brincava. Na música que ouço baixinho. No cheiro bom dos meus filhos. No que escrevi nos meus diários. Nos versos que rabisco. Na dor que me dói no peito. Nos meus boletins escolares. Nas redações do colégio. Nas minhas listas de compras. Nos álbuns de fotografias. Na certidão de batismo. No olhar dos meus amigos. Nas saudades que sinto. Naquilo que me indigna. Em tantas coisas que adio. Em tudo o que acho engraçado.
Me procuro nas gavetas, nos testes de grafologia, nas roupas que sempre uso, nos programas de TV, me procuro nos romances, nos livros de auto- ajuda, nos porta retratos da sala, nos filmes com final feliz, nas ruas da minha cidade, naquilo que sonho ser.
Qualquer pessoa sabe mais de mim do que eu.

25.1.06

"A vida suporta bem mais do que imagino"

(em 21 de novembro de 2005)


Hoje é mais uma manhã de domingo... Acordo aos poucos... Tá uma manhã tão linda!
Como sempre tem acontecido, a dor vem rápida, quando constato que ele não tá vivendo esta manhã... E, como sempre, não quero me entristecer com esta saudade... Mentalizo luz e amor e tento tocar a vida, do jeito que ela se mostra e do melhor jeito que conseguir levar... Penso que a lembrança dele é doce, reconfortante, me deixa feliz...
Ainda com todas estas sensações, sento no computador e vou, ao acaso, direto para um texto que fala justamente sobre situações difíceis - ou "nocautes" ou "desolações", como fala o autor*... Me identifico demais com estas palavras:
"...E em todas elas, me veio uma força misteriosa, um impulso para a alma, uma reação tranqüila, apaziguada. No limiar, nasce a sensação de que a vida suporta bem mais do que imagino."
Fecho os olhos e agradeço mais um domingo. E sei que tá tudo bem.



* Samarone Lima http://estuariope.blogspot.com

Pôr de sol

Foto tirada pelo Pigue em 22/maio/2005


Lá nas Cordilheiras tudo é bonito demais: a várzea com o gado pastando, o Cerro Partido, o velho mangueirão de pedra, o galpão com o fogo sempre aceso, a casa cheia de histórias...
Mas o que acho mais bonito lá é o pôr de sol! Nada me emociona mais do que o sol se pondo no mangueirão, como a nos mostrar que a vida é um eterno ciclo e que ele sempre vai nascer no outro dia, renovando nossas esperanças e o amor que sentimos pela nossa família e pelos nossos amigos!
Adoro ficar lá no banco de pedra assistindo o sol ir brincando entre as folhas daquelas árvores enormes até desaparecer, sem a menor pressa...
Related Posts with Thumbnails