
Sempre o medo de falar, o nó na garganta, a emoção que cala a palavra!
Cresci numa família de gente de temperamento forte, de uma certa intransigência, uma tendência à polêmica, tudo discutido, brigado, reclamado! Nem dó nem piedade na hora de apontar as falhas, acusar, mostrar os defeitos, como se fosse natural e esperado que se agisse assim!
Meus pais raramente concordavam em alguma coisa e tudo era motivo de discussão! Minha mãe não cedia, meu pai não aceitava e custei a descobrir que era isso o que mais gostavam um no outro, mesmo que eles não concordem com esta minha visão dos fatos! Estranharia se concordassem! Quando surgiu uma música brega-sertaneja decidimos que seria a trilha sonora dos meus pais! A música? "Entre Tapas e Beijos"!! Heheh!
Aprendemos a polemizar, a discutir, a defender ideias, a conviver com as diferenças, a "cutucar", a implicar e a rir disso tudo! Sim! Porque sem humor - e amor, seria impossível a convivência e sempre fomos muito próximos!
Acontece que, neste clima, desacostumamos a elogiar, declarar amor, salientar as qualidades... Pelo menos, não explicitamente, da forma habitual! Elogiávamos entre linhas, nos declarávamos falando às avessas, numa espécie de código que sempre funcionou e acabou nos salvando!
Meu apelido era Badinha, porque riam da minha sofisticada preferência por goiabada! Sempre chamei meus filhos de "Sujeirinha, Lixinho, Porcaria..."! Seguidamente vou lá no Orkut só pra escrever pro Pedro "Guri Bobão"!! Ele lê e vem rapidinho puxar papo comigo no MSN com um enorme "hauiahauiahaiuahaiuahaiua!!"
Perdi a conta das vezes em que jantei na casa de um dos meus irmãos, e, depois de me deliciar com tudo o que tinha sido servido, dizer que ia embora, porque ainda iria passar num lugar pra comer um "bauru com ovos"! Ou me lembro que, num dos seus aniversários mais recentes dei de presente um kit com Viagra, complexo de vitaminas, energético etc! Isso pra falar de amenidades!
Sempre foi assim! Um humor exagerado, atravessado, um carinho dissimulado, expressado por meio de piadas infames e gozações de todo o tipo! Sempre a certeza de que qualquer coisa poderia ser dita, que poderíamos ir até o limite de uma controvérsia sem nos perdermos! De que sempre ficaríamos de bem! De que nos amaríamos apesar dos defeitos e das implicâncias! Sempre o prazer da disputa verbal! Mas nas atitudes sempre sobrou respeito, generosidade e cuidado, por mais que isso pareça contraditório!
Talvez eu tenha que aprender a ser mais explícita no meu amor, a ser mais doce, perder o medo de me declarar, de ser carinhosa, de falar da minha admiração... até porque é justamente com as pessoas mais próximas e queridas com quem sou mais travada!
E também porque ando meio sem graça, sem tanta disposição pra estas polêmicas, provavelmente porque um dos brigões que eu mais amava - e que mais me irritava! - saiu da briga antes de mim!